Não foi fácil
Martha Medeiros
Uma rede de lojas de Porto Alegre, que vende roupa para adolescentes, espalhou um outdoor pela cidade no qual ela se despede do ano que passou dizendo, em letras garrafais, "Fuck You 2005". Não é preciso traduzir, creio.
Pode não ser uma mensagem fraterna e festiva, mas entendo perfeitamente o desabafo, quem não? 2005 foi um ano intenso, pra dizer o mínimo. Começou com um tsunami devastador na Ásia e esta foi apenas a primeira das inúmeras reações violentas da natureza. No rastro das ondas gigantes vieram furacões sucessivos, tempestades furiosas e lavas descendo vulcão abaixo. É a maneira que o meio-ambiente encontrou de dizer fuck you também para nós, que não temos sido muito cuidadosos com o planeta.
No Brasil, teve o tsunami político que ainda não terminou. Uma denúncia por dia, em média. Máscaras caindo uma a uma e a tremenda desilusão com o único partido que ainda acreditávamos ético. Foi-se o sonho. Reconhecer que são todos iguais nos matou um pouquinho por dentro, e já não encontro quem ponha a mão no fogo pelas poucas exceções que sobraram.
No Rio, foi o ano em que o tráfico ganhou a guerra. É ele quem está no comando. Resta-nos a expectativa de ver se o esquema de segurança planejado para os Jogos Panamericanos em 2007 dará conta do recado e se conseguirá ser mantido depois que o Pan terminar. Está aí uma oportunidade que os cariocas não podem perder.
E teve os tsunamis particulares, pessoais, emocionais. Nunca vi tanta gente remexida por dentro, tomada de uma angústia vinda não se sabe de onde. Diz a Amanda Costa que em 2005 passamos por um longo ciclo de ruptura e reformulação, e nossos sentimentos mais secretos subiram à superfície, revelando-se à nossa consciência. Logo vi que os astros tinham alguma coisa a ver com isso.
Foi um ano difícil. Mas difícil nem sempre é sinônimo de ruim. O difícil acaba com nossa apatia, o difícil nos faz refletir, o difícil nos exige uma postura. Está fora de cogitação a paralisia, cúmplice do continuísmo. Basta, é hora de agir. Vale para cada um de nós, em caráter privado, e vale para nossa cidadania, em caráter público.
Devemos muito a este ano que passou. Foi %&$#*!, mas não foi em vão. Ninguém saiu dele do mesmo jeito que entrou. Estamos mais maduros e mais conscientes. Que venha o próximo. E, quando ele terminar, que está loja de Porto Alegre, caso queira, volte a colocar nas ruas um outdoor no mesmo espírito desbocado do anterior, mas que possa dizer: "2006, que puta ano".
Domingo, 1º de janeiro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.